Mentiras Históricas


Sodoma & Gangorra




Olhei para trás.
Estou de costas para o que serei,
não, muito pior,
estou de costas para o que sou.
Por que é isso o que tenho.
Apenas o instante e seu nuncamais me pertencem.
E eu olhei para trás.
E vi, entre os cacos do sal que arde meus olhos,
fere minha boca, seca e cala minha lingua,
eu vi nossa história em chamas.

Desobedeci o tempo e me virei contra ele,
procurando por você.
Meticulosamente destruí minha única eternidade:
sua memória de mim.
Estou trincada.

Estou o depois da lágrima.
Estou o gosto do fim
Estou sal.
Estou só.

Escrito por claudia às 19h34
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Explica?





Não obrigada, não quero me deitar no divã, ou posso dormir.
Fugindo? De nada não. É que eu só pago pra dormir em hotéis cinco estrelas, com vista merecedora de fotos.
Sonhei esta noite. Um sonho tão impressionantemente real que acordei atordoada e ainda com as sensações físicas do que aconteceu enquanto dormia.

Vou contar, calma, é que estou me lembrando para ser fiel aos acontecimentos.
Eu era amante de um homem pequeno.
Anão? Não, pequeno, não sei explicar, me lembro que ele estava sentado em um banco e eu tentava deitar minha cabeça no colo dele e era desconfortável. Colo pequeno.
Eu disse colo… o resto não deu tempo para descobrir.
Não achou graça? Ou é proibido de rir?

Você conta o que eu te conto aqui pra alguém? Nem comenta com sua mulher? Nada?
Não estou questionando a terapia, só estou pensando, me desculpa… Tá bom, de volta para o sonho…

Nem para o seu terapeuta você conta? Ou pro padre?
Porque se você tem que dizer a verdade pra eles, porque esconderia o que eu conto para você aqui, sentada nessa cadeira mais baixa do que a sua?

Minha auto estima não é baixa. É apenas uma constatação. A cadeira onde me sento e confesso meus segredos é mais baixa do que a sua. Isso faz parte da técnica que você adota? Precisa se sentir superior? Vai ver você tem problemas de auto estima… Não achou graça?

Ok, o sonho.
Pois então, eu tentava me aninhar num colo onde não me cabia confortavelmente. E era um lugar estrangeiro. Alemanha, acho. Era um bar ou um restaurante. Ele se levantou dizendo que tinha visto uma coisa bonita alí perto e que voltaria logo. E voltou com um colar imenso de esmeraldas para mim. Imenso. Pedras verdes do tamanho do desta minha unha, olha… maiores até. Peguei o colar e senti o peso dele. Lindo, as pedras colocadas em uma estrutura que cobria todo o meu colo.

Pensei: não vou poder aceitar.
Vontade de chorar…
Não, não estou com vontade de chorar agora. No sonho tive muita vontade de chorar porque sabia que não poderia aceitar tal presente.
Porque? Ora, porque isto significaria que eu teria que agradecer pelo presente..
Como assim? Como assim, como assim? Pergunta estranha… agradecer, ora. Agradecer com o que eu tenho para dar para ele e, sabemos que ele não esperava uma outra jóia. Mas deixei ele colocar o colar em meu pescoço. Tão bom um homem, mesmo pequeno, colocando aquela jóia pesada em volta de mim. Agora penso que é como se eu estivesse sendo coroada, feita rainha.

Sinto ainda o peso frio das pedras contra meu peito.
Acho que disse que não poderia aceitar. Não devo ter dito com muita veemência porque ele sorriu e disse que eu poderia sim e que seria apenas o primeiro.

Aí eu já estava do lado de for a do lugar onde estávamos…
Onde era? Alemanha, acho…
Ah, o lugar? Não sei, um bar. Sei que saí pra curtir o colar um pouco antes de devolvê-lo. Examinei detalhes, vi uma coroa impressa no fecho de ouro… Vi o preço e me lembro do valor: 531 mil euros. Estranho, né? Era este o valor.

Voltei para perto do homem pequeno e devolvi o colar.
Mas chorava enquanto era nobre nesse sonho.

O que acho que este sonho significa? Você está me perguntando? Não é sua parte no nosso combinado?

Meu ginecologista não gosta mais de me atender. Desde que resolvi não ter mais filhos. Não, não, ele não disse isso, mas eu percebo. Ontem liguei pra ele e achei que ele estava com má vontade. Fiquei tão irritada que disse o que pensava. Uai, disse que ele tinha construido os castelos - tive dois filhos com ele.

Desculpa, tô rindo porque do jeito que eu falei “tive dois filhos com ele” parece que ele é o pai…. Não achou graça? Já sei, não quer interagir. Uma vez eu achei que estivesse apaixonada por ele. E disse pra ele! Chamei meu marido e disse que ia deixá-lo pelo ginecologista.
Nada não, riu. Os dois riram.. e eu falava sério. Mas aí a enfermeira trouxe minha filha pra amamentar e eu parei de pensar no assunto.

Engraçado. Me lembrei agora. Quanto tive meu segundo filho, propus ao anestesita, fugirmos. Estranho isso, não?
Não quero falar sobre isso… onde eu estava mesmo? Ah… estava te contando que achava que meu ginecologista não gosta mais de me atender depois que não vou ter mais filhos.

Mas eu disse pra ele que dei dois castelos para ele construir e que agora ele tinha que topar fazer os puxadinhos. Não entendeu?
Metáfora – castelos, meus filhos. Puxadinhos – ligar pra saber o que faço pra melhorar minha tpm.

Como assim o que mais?
Acabou. Foi só isso. Porque mesmo eu falei do meu ginecologista? Não me lembro…

Acabou a sessão? Já?
E o colar de esmeraldas? Semana que vem?
Acabou?
Estou devendo quantas sessões? Nossa, caro… te falei que estou sem dinheiro. Isto não o comove?
Obrigada, até segunda.


Escrito por claudia às 11h39
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Fundamental





Olhei para ele e não o vi como sempre pensei que fosse.
Todo esse tempo desconhecendo meu pai.
Me dou conta que nunca,
(ainda) tinha,de fato, olhado para ele sem
a certeza acostumada do meu olhar genealógico.

E agora, me parece,
é tarde demais.
Tal constatação é de uma desolação excruciante.
(achei o tamanho da minha dor nesta palavra).

Pai…

Ele não responde porque está cansado
de responder. Nem sei se me respondia antes.
Antes, não precisava, ele estava lá.

Pai…

Ele me olha não querendo me ver.
Como nunca, realmente, me viu.
E chega a mim uma imagem definitiva:
uma gota deixada ao sol.
Não mata sua sede e é certo que vai desaparecer
muito aos poucos.
E mesmo que você se mantenha,
canina, ao lado dela,
olhos colados em sua existência fragile,
não verá a hora em que ela desvanescera no ar.

Ô, papai...

Escrito por claudia às 18h15
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