Mentiras Históricas








Olha pra mim, peço. E você me olha com olhos vagos, acostumados e sorri distraído,
como se não fosse vida ou morte o que pergunto.
Olha pra mim, o que você vê? Minha mulher, você responde.
E eu digo não e peço para olhar direito e dizer realmente, o que vê.
Uma linda mulher, você diz, tentando comprar seu sossego com um elogio fácil.
Insisto, porque dependo do seu olhar para confimar o que, acredito,
transborda all over me.
Se você não confirma o que sinto, se você não vê como estou, como acreditar em mim?
Hein? Espelho…diga, o que vê quando olha pra mim?
Então você pousa a taça de vinho sobre a mesinha, bem ao lado do cinzeiro onde queima um charuto
insensando nossa casa de uma serenidade que não sinto.

Sobre o que quer falar, você pergunta focando meu rosto de tal modo que o emoldura entre suas mãos.
Ah, este contato… ah esta atenção absoluta que desejo sempre, agora me desconcerta.
Quero saber se você me conhece,
respondo embolada com as indesejáveis lágrimas embaçando a seriedade dos meus sentimentos.
Então você puxa o fio ancestral da nossa história e vai me tecendo do começo.
De quando me viu pela primeira vez,
de como se sentiu, de como me quis.
Esquece, eu peço, esta menina é hoje um retrato no hall da sua memória.
Olha pra mim agora. Olha!

Você está cansado e se esquiva do tapa da realidade que lhe proponho.
Solta o meu rosto e volta para a vaguidão de nós dois, existindo apesar de mim,
independente do que sou e do que você é.

Estou desolada e de puro desamparo telefono pra alguém.
Alô… e ignorante da imensidão que me cala,
o outro lado da linha banaliza de novo minha existência primal.

Agora sou eu quem olha pra você como gostaria que me olhasse.
E desconheço com tanta nitidez o homem que eu amo que sinto meu corpo retrair,
buscando em concha, proteger-me do futuro do que fomos ontem.
O hoje que não me cabe nem me acolhe. Tampouco me impulsiona para um futuro de nova espécie.
É tão intensa a minha a minha solidão, tão areado o chão sobre o qual me desequilibro.
Então, para reestabelecer o cotidiano suportável pergunto, sabendo desde já sua resposta:
quer um chá de menta? Vou fazer chá de menta…

E caminho para a cozinha como se não estivesse abandonada.



Escrito por claudia às 19h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Mulher
Histórico
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog